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Uma reflexão sobre a gestão: Buscando ou disfarçando as evidências?

Thiago Olival


Uma música muito famosa e que até hoje mexe com a cultura popular retrata bem uma situação que assola as organizações: a falta de evidências científicas na gestão e, obviamente, a crença quase que mágica em especialistas, gurus e em práticas pseudocientíficas. Talvez seja tão somente desconhecimento ou pouco letramento técnico, mas em muitos casos é notória a negação de uma abordagem mais racional no processo de gestão.


Não é necessário muito conhecimento musical para saber que as estrofes, embora inicialmente não cunhadas para este fim, também se encaixam neste contexto:

Eu me afasto e me defendo de você...Mas depois me entrego...Faço tipo, falo coisas que eu não sou..Mas depois eu nego...”

Mais de 12 anos se passaram desde que Matos (2008) trouxe a discussão sobre a dicotomia entre a administração enquanto ciência e/ou enquanto arte. Evoca-se neste manuscrito a racionalidade e cientificidade por trás de Taylor e Fayol um contexto geral e a longa discussão acerca do conceito de arte e ciência, ora separando-se, ora convergindo (ao menos em partes). Ponto que traz boas reflexões é a citação sobre Popper no que tange a ausência de testabilidade e falseabilidade dos chamados “argumentos definitivos” dos supostos grandes nomes da gestão contemporânea, muitas vezes apresentados na mídia ou no mundo corporativo como possuidores de “balas de pratas”. Mas uma pergunta que fica: temos realmente lobisomens?


No mesmo período, Picanço, Cruz e da Silva (2008) abordam a questão da pseudociência na administração e parafraseiam Sagan (2003) sobre os perigos e seduções de especialistas, que não necessariamente sabem muito sobre certo assunto, mas que possuem o dom da oratória, boa postura e tom de credibilidade para comercializar seu produto, constantemente apelam as emoções para convencer. Para piorar, as vezes os especialistas sequer são especialistas, mas sim oportunistas.

“E nessa loucura de dizer que não te quero...Vou negando as aparências...Disfarçando as evidências...Mas pra que viver fingindo...”

Mas não precisamos ir muito longe para talvez entender por que nas organizações temos tamanha “gestão homeopata”. Um dado curioso; até pouco tempo atrás, o SUS pagava (e talvez ainda continue pagando) por terapias alternativas (algumas bastante questionáveis) e sem nenhum indício de eficácia comprovada. No mesmo período, a Espanha, Reino Unido e Austrália endureceram suas políticas contra práticas não comprovadas no sistema de saúde a ponto de conduzirem estudos não somente sobre o grande placebo que algumas destas técnicas são, mas chamando a atenção sobre os riscos que existem em negar práticas comprovadas e buscar meios alternativos.


E os modismos são lançados aos montes. Em uma busca simples, veja quantos livros de especialistas em gestão, empreendedorismo, coach, motivação e outros temas correlatos que não passam de pura ficção (de baixa qualidade, por sinal) são encontrados, onde os cases de sucesso são contados de maneira tendenciosa, negligente e ficcional. E qual a credibilidade acadêmica que alguns dos autores possui? O sucesso foi método ou foi sorte?




Não pense que a prática ocultista na administração está em declínio ou em crise, pois constantemente se reinventa e afasta a cientificidade da gestão. Não é tão novo assim e é bem fácil de achar na internet dezenas de consultores que oferecem uma linha de consultoria chamada “Astrologia Empresarial”. A ideia é que a posição da Lua, signo e ascendente do Zodíaco podem influenciar os negócios de maneira a predizer se a empresa será inovadora, bem-sucedida, coordenar a gestão de riscos, gerir a performance de ativos em bolsa e até qual setor seria mais indicado para a abertura ou mudança do negócio, tudo de acordo com a data de abertura... ou nascimento dos sócios. Uma nova tendência é a da constelação empresarial, que nada mais é do que a adaptação da constelação familiar para o mundo dos negócios.


Wright, Zamuto & Leisch (2016) argumentam que modelos de gestão baseados em evidências se diferem de outros modelos pois partem do pressuposto da utilização explicita e sistemática de evidencias científicas em conjunto com outras fontes de evidências (internas e externas), de maneira que esta múltipla fonte auxilie os gestores no processo decisório. Quando somente as fontes internas e externas (Tort-Martorell et al, 2011) são utilizadas, o processo de gestão pode ser severamente impactado, visto as variáveis situacionais e oriundas de processos sociais dos envolvidos, que não necessariamente tem boas premissas.


Também, não podemos deixar um outro lado deste assunto: o custo envolvido na tomada de decisão, em especial em um cenário onde pouco se planeja. Katapol (2018) sugere que gestores geralmente param com o processo decisório e de avaliação multiplos cenários, quando obtém o primeiro resultado satisfatório. Vale ressaltar que assim como Simon (1955) propõe o conceito de racionalidade limitada, nem todas as informações estão disponíveis, e Rynes, Colbert&O Boyle (2018) e Katapol (2018), argumentam que muitos gestores rejeitam emocionalmente o resultado de pesquisas com base em juízos intuitivos, necessidade de preservar auto estima, manter controle e outros interesses pessoais. Também, há indícios de que certas situações também possam limitar a racionalidade, como o ambiente político, a regulamentação, as preocupações sociais, situação econômica, o orçamento e as tidas urgências empresariais, muitas vezes não previstas em planejamento (e as vezes negligenciadas...).


Muito melhor do que mascarar as evidências, um modelo baseado em evidências poderia proporcionar maior competitividade as organizações, além de canalizar os recursos dedicados ao placebo corporativo para a efetiva criação de remédios de gestão mais eficientes... e talvez sem efeitos colaterais.

Thiago Olival

Administrador e Mestrando em Psicologia Social do Trabalho e das Organizações


Referências

Cruz, Eduardo & Fabio, & Siqueira, Nascimento & Silva, Da. (2008). Ciência e Pseudociência na Administração. Revista Pensamento Contemporâneo em Administração. 2. 10.12712/rpca.v2i2.131.

Katopol, P. F. (2018). The Halo Effect and Bounded Rationality – Limits on Decision-Making. Library Leadership & Management, Volume 32(Number 3), 1–5.

Mattos, Pedro Lincoln C. L. de. (2009). "Administração é ciência ou arte?" O que podemos aprender com este mal-entendido?. Revista de Administração de Empresas, 49(3), 349-360. https://dx.doi.org/10.1590/S0034-75902009000300009

Rynes, S. L., Colbert, A. E., & O’Boyle, E. H. (2018, November 1). When the “Best Available Evidence” Doesn’t Win: How Doubts About Science and Scientists Threaten the Future of Evidence-Based Management. Journal of Management, 44(8), 2995–3010. https://doi.org/10.1177/0149206318796934

Sagan, C. O Mundo Assombrado pelos Demônios: A ciência vista como uma vela no escuro. Ed. Random House, São Paulo, 1995

Simon, H. A. (1955) "A behavioral model of rational choice", The Quarterly Journal of Economics, vol. 69, n. 1, February: 99-118, https://doi.org/10.2307/1884852

Tort-Martorell, X., Grima, P., & Marco, L. (2011). Management by facts: The common ground between total quality management and evidence-based management. Total Quality Management and Business Excellence, 22(6), 599–618. https://doi.org/10.1080/14783363.2011.568262

Imagem retirada de https://bensonmediation.com/blog/2017/10/18/magical-thinking-and-mediation <Acessado em 02/07/2020>

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